Website do ator, psicólogo e manager Rafael Santin. Pai da linda Maria Eduarda. Atualmente estuda artes dramáticas no Conservatório Carlos Gomes. Além da recente produção de "Revolução na América do Sul", trabalhou na homenagem "Cacilda Becker" e no curta-metragem "Dois Atos".
Tem tatuado em árabe, sua filosofia de vida:
Em Nome de Deus, O Clemente, O Misericordioso

Os Prazeres da Vida oFale Conosco


Domingo, Dezembro 26, 2004



Na antigüidade grega, as comédias eram vistas pelas classes cultas como um gênero popular menor, que nada acrescentava ao espírito. Entretanto, a genialidade do poeta ateniense Aristófanes (445 - 385 a.c.) conseguiu suplantar o descaso com que as peças cômicas eram vistas pelos eruditos - aqueles que, justamente, determinavam e registravam o que iria passar à posteridade - e várias das suas comédias chegaram até nós. A mais representativa e importante delas é Lisístrata - A Greve do Sexo, traduzida pelo escritor e jornalista Millôr Fernandes.

Se Lisístrata teve sua importância no reconhecimento da comédia no cenário grego a nova montagem de Lisístrata realizada pela Cia. CPFL de Teatro e com direção de Abílio Guedes, retoma essa luta contra os tabus e resolve implantar o teatro dentro do mundo corporativo, sem ser amador e muito menos chato.



O objetivo de reunir funcionários da empresa interessados em buscar uma identidade com as artes cênicas, foi não só um ato motivacional para os envolvidos, como também um espetáculo de divulgação para todos aqueles que compareceram as dependências do Espaço Cultural da CPFL, que puderam observar a integridade que a companhia tratou seus funcionários neste projeto, visando o desenvolvimento e a formação de um indivíduo mais completo e analítico.

Durante minha vida corporativa e até mesmo na época em que estudava Peter Drucker na faculdade, confesso que jamais me deparei com uma estrutura planejada como essa. A idéia de proporcionar um espaço de desenvolvimento dos atores/funcionários, com uma temática primeiramente livre e depois profissional descreve que as intenções não estão voltadas para o retorno imediato de resultados. O contato com as artes dramáticas proporcionará a empresa um ganho a médio ou longo prazo, na medida em que seus participantes encontraram outras formas de se comunicar e o mais importante, outras formas de analisar e compreender o mundo ao seu redor.



Corporativismos a parte, Lisistrata foi substancialmente um espetáculo. Em meio a uma guerra que se prolonga, destruindo a vida dos homens e filhos de Atenas e esvaziando os cofres públicos, as mulheres gregas, lideradas por Lisístrata, decidem fazer o que está ao seu alcance: uma greve de sexo, até que os homens assinem um acordo de paz.

Oriunda de uma época em que as mulheres não subiam ao palco, assim como não eram autorizadas entre o público do teatro, Lisístrata é um retrato de seu tempo e da civilização ocidental. Um retrato bem-humorado, no entanto: inversões de papéis e situações absurdas marcam a trama. Nas entrelinhas desta obra-prima do pai da comédia, o que se vê é a discussão de temas tão sérios quanto atuais, como o a paz e a democracia, o amor à pátria e o preço da guerra.



Com um tema tão propício, a grande maioria das montagens desta peça desvirtua-se para o escracho e para o deboche. Eu mesmo a uns dois anos atrás em um exercício para a matéria de História do Teatro, participei de uma versão mais picante e chanchadesca da história. Porém, essa versão não só tem uma linguagem mais sutil, como também a marca honesta de seu diretor, que com muito bom gosto, conseguiu dar a mesma graça que o texto propõe, com uma abordagem mais simbólica e implícita.



A atuação dos atores é um capítulo à parte. Com muita intenção nas expressões, o que se viu foi um trabalho de "gente grande". As performances do coro grego além de belíssimas traziam a as posturas e comportamentos de uma época, coreografadas por Mirela Guizzo, professora de ballet clássico, que ainda assinou um dos mais belos momentos de Lisístrata: a dança da bailarina que precede as profecias da sacerdotisa.



Tudo funciona em perfeita harmonia e assistir Lisístrata pelo ponto de vista da coxia foi uma oportunidade de presenciar a eficiência deste grupo, que assumiu uma postura engajada na realização deste projeto. E como diriam "as grevistas mulheres de Atenas, e as demais mulheres helênicas... Evoé!!!"



Sábado, Novembro 27, 2004



Após quase um ano de trabalho, estréia no próximo final de semana o espetáculo Revolução na América do Sul, texto escrito por August Boal, que apesar dos 44 anos que carrega nas costas, está mais atual, crítico e sarcástico do que nunca. Por que? Políticos desonestos, milionários inescrupulosos, fome, serviço público desorganizado e precário, corrupção e manipulação jornalística, miséria, banalização do sexo, burguesia alienada e disputa pelo poder, foram os temas abordados por Boal para desenrolar sua história em 1960 e constantemente podem ser encontrados nas manchetes de hoje... gosto de dizer que qualquer semelhança desta história com a vida real "não" é mera coincidência.

A "Revolução" é na verdade a fantástica história de Zé da Silva. Você perguntou, quem? Zé da Silva... esse mesmo que encontramos todos os dias nos noticiários, nas ruas, no meio da multidão. Um Zé coitado que de tão coitado faz ele mesmo ter pena de si próprio. Está confuso de entender? Então imagine todas as classes sociais, todos os grupos étnicos, profissionais e governamentais, interferindo diretamente na luta de nosso anti-herói em conseguir uma refeição mais digna. Essa é a revolução que tentaremos contar nos aproximados 85 minutos em que a platéia estiver sobre nossa responsabilidade.



Digo "responsabilidade", porque como já disse nesse mesmo site, a profissão de ator não se embriaga apenas no prazer da encenação e exibição da arte, mas flerta minuto a minuto com a formação de opiniões e possíveis decisões, daqueles que nos assistem... pelo menos, essa foi a lição.

Embora o tema seja um ponto de partida cheio de opções, a escolha deste texto se deu principalmente pela quantidade de personagens que precisávamos e pela (me permitam) subversiva forma de escrever que Boal emprega em suas palavras, sendo a materialização prática daquilo que Brecht idealizou. Sendo esses os motivos principais, começava assim a principal dificuldade da produção. Como coordenar tantos personagens e ainda transformar a aquilo que embora atual, pode cair no deja vú?



A resposta: com um Provocador. Essa é a minha forma de definir a direção de Abílio Guedes e sua adaptação desse espetáculo. Submeter o humor politicamente incorreto do texto a uma adaptação globalizada foi apenas um dos primeiros delírios que o diretor teve no decorrer da produção. Embora simples, o cenário interativo, derrubou não só a quarta parede de Brecht, mas também tira o chão, o teto e a liberdade de quem atua e de quem assiste, porque transporta a cena para dentro de casa, enquanto a platéia é levada para dentro da revolução. As dificuldades cênicas também foram pra lá de exigentes. Criar em minutos uma nova marcação e com o padrão de qualidade exigido por ele mesmo foi uma constante lição de como superar obstáculos impostos pela produção limitada, com criatividade e conteúdo.

Se olharmos para suas últimas produções, veremos que a provocação é sempre o objetivo a ser conquistado. Em "Ópera do Malandro" o incomodo está nas ruas e na "Gota D'Água", dentro do ser humano. A "Revolução" não é tão introspectiva assim, mas é indigesta e pérfida no sentido em que joga a responsabilidade no colo de quem a assisti e por que não, no colo daquele que o faz.

Será essa minha "primeira grande coisinha". Vou explicar: "Cacilda" foi muito gostoso de fazer, mas confesso que não encontrei naquele nordestino filhu duma égua do Dodô Vicente, o mesmo impulso que o meu cartoonizado "revolucionário" hoje me conduz. Com isso, o espetáculo é para mim algo a ser cumprido, mesmo que isso signifique extrapolar os limites que o corpo possui, ou a dor que minhas cordas vocais sentem ao final de cada ensaio.

È engraçado como aos poucos não só o seu personagem fica íntimo de você, mas como as demais inusitadas presenças se tornam próximas e rotineiras do ator. È como se realmente todas as terças e sextas eu realmente tivesse uma reunião com a minha "secretária", ou então que tivesse que preparar um discurso entusiástico para a "câmara dos deputados". Porém, ao mesmo tempo em que vejo com familiaridade a revolução que se passa ao meu redor, busco o ponto de vista de quem estará sentado assistindo. Nesse momento, tudo o que acabei de descrever cai por terra e fica apenas uma massa encefálica produzindo texto e emoções como uma máquina de publicar livros... inclusive com a mesma importância que ela, a de multiplicar.


da esq. para a dir. Valtinho Froldi, Amadeu Tilli, Edson Ortolan, Léa Zigiatti, Robson Kumode e Camila Castellani

Durante essa jornada, muitos foram os "revolucionários" que se juntaram a nós. O que seria das composições dos personagens se não fosse a intervenção Valtinho no processo criativo. É interessante observar como os detalhes não lhe escapam aos olhos e como os gestos se tornam preciosos após suas orientações. Estaria ai o objetivo dos aquecimentos? Não tenho dúvidas.

E o gigante Amadeu Tilli, ou simplesmente Tilli como gosto de falar. Não tenho medo de dizer que se não fosse pela sua decisão de embarcar nessa "revolução", em um momento em que o barco parecia estar a deriva, o visual que estamos alcançando seria impensado. É impressionante ver sua habilidade de transformação se materializa no ambiente visualizado pelo grupo. Seus cenários são uma lição que a muito tempo pedimos e uma aula de gentileza. Sua paciência comigo não é só por amizade, mas por fluência recíproca de conceitos: a arte. Ainda não consigo materializar aquelas caixas e mesas de som... sacanagem.

Não podemos esquecer do verdadeiro revolucionário de plantão. Uma espécie de Che Guevara conservado em âmbar, que reluz como faca, pau e navalha pelas aulas de história. Suas pesquisas foram verdadeiramente significativas para a produção e diria até para a minha concepção. É inesquecível sua narração comentada no documentário Nós que aqui estamos, por vós esperamos. A depressão que tanto pontuou, se tornou combustão para minha criação com cenas como a sarcática condenação a cadeira elétrica, de um homem que jamais teve luz em sua casa. Parece que mais uma vez a "revolução" estava dentro de nós.

A participação de Lea Zigiatti é não só importante, mas decisiva no encerramento desta produção. Além de proprietária do Conservatório, vem tendo constantes questionamentos sobre a administração que a cidade está submetida, principalmente com seus patrimônios culturais. Sua resposta foi equipar as instalações de seu próprio teatro, em um esforço conjunto com Tilli para que as produções de 2004 acontecessem como seus idealizadores imaginaram e promete para 2005, não só uma reformulação civil nas instalações do CCG, mas como no conteúdo acadêmico de sua instituição. Palavra é palavra heim...

Para completar o time, chegam ao mesmo tempo Camila Castellani e Robson Kumode, para a operação da sonoplastia e projeção respectivamente. A presença de ambos é mais do que um motivo de orgulho para nós, porque a menos de um ano estávamos assistindo suas encenações e agora te-los ao nosso lado é como se pudéssemos quebrar as barreiras que impedem as criações teatrais em Campinas.



Voltando aos "revolucionários" e procurando não me delongar mais, porque provavelmente você tem mais o que fazer do que ficar lendo isso aqui, para ver as diversas figuras que foram surgindo nesse período todo. De repente, uma miserável de mulambenta (estou falando da Wauters) passou a conviver conosco em uma espécie de "cinema verdade". Jesus, que mulher feia... só de lembrar a sua pose para o ensaio fotográfico que estará em exposição na anti-sala do teatro já me dá arrepio.

E a desenvoltura e "vocação" da Prostituta 2 vivida pela Daniele Viegas. Ouso em dizer que se os ensaios durassem mais alguns meses as dançarinas das boates da região estariam ameaçadas pela vilipendiada e depauperada ingenuidade de sua labutadora.

Por fim meus queridos assistam, porque mais vale um ovo jogado na ribalta do que um final de semana assistindo Faustão. Assim sendo VIVA A REVOLUÇÃO!!!!!



Serviço
Revolução na América do Sul
Dias 03, 04, 05, 10, 11 e 12 de dezembro
Sextas e sábados as 20h e domingos as 19h
Entrada Franca
Teatro do Conservatório Carlos Gomes
Rua José de Alencar, 701 Centro - Fone: 19 3232-9345


Segunda-feira, Novembro 22, 2004


Na próxima sexta-feira, 26 de novembro, estréia no teatro do Conservatório Carlos Gomes o espetáculo A Saga de Felix Farsa, com a direção da nossa lenda viva Rubens Teixeira. Confesso que estou bastante ansioso para assistir o resultado final desta montagem, porque durante algumas semanas, fiz parte desta produção, porém, por motivos mais que justos (exatamente uma semana depois estréio a nossa Revolução), tive que sair do grupo... Contudo, a vontade de conhecer a materialização desta história, só foi crescendo com o decorrer do tempo e finalmente, chegou a hora.



Essa montagem já merece o crédito de vontade e dedicação. Isso porque o elenco sofreu muitas baixas no decorrer de seu processo, precisando recomeçar quase toda seu planejamento a cada alteração mais significativa. Depois de muito entra e sai, os determinados Caroline Carreiro, Fábio Nacarato, Lilian Prieto, Ricardo Galvão agregaram um elenco definitivo e talentoso da trupe do diretor Rubens Teixeira, entre eles, os ótimos Marcos De Vuono, Thaís Costa, Alexandre Kleine e Ângela Azevedo.



É a história de Felix, um roqueiro e ídolo que abusa do álcool, das drogas e está sofrendo uma crise existencial. Ao seu encalço está uma verdadeira máquina que está perdendo dinheiro com os 5 anos em que o astro se encontra afastado dos holofotes. João é mais um Ninguém que tem todos os discos de Felix e vê nele o lado mais colorido de sua vida monótona.

"A Saga de Felix Farsa" - 26/11 e 27/11 às 20h e 28/11 às 19h
Local: Teatro do Conservatório Carlos Gomes - Rua José de Alencar, 701, Centro
Ingresso: R$ 3,00 (valor único)
Direção: Rubens Teixeira
Elenco: Alexandre Kleine, Ângela Azevedo, Caroline Carreiro, Daniela de Paula,
Fábio Nacarato, Leonardo Cassano, Lilian Prieto, Luciane Lotufo, Marcos De Vuono,
Paulo Monte, Ricardo Galvão,Thaís Costa e Thamy Quintanilha.


Segunda-feira, Novembro 15, 2004


Aqui em Campinas o público de teatro oscila entre peças de cunho popular (Trair e Coçar...) e investigações estéticas (Novas Diretrizes...). Assim sendo o espetáculo O Zelador uniu os dois extremos com uma costura de humor e teatro do absurdo que garantiu a satisfação dos expectadores pela segunda vez em nossa cidade. Com Selton Mello, Álvaro Diniz e Michel Bercovitch, a peça baseia-se no texto de Harold Pinter para sair da superfície sem abandonar a simplicidade.

"Eu quis fazer uma turnê com o ouro, e Campinas está no ouro. É um público interessante, vibrante, mais atento, mais a fim de discutir o espetáculo. Aí a gente volta. Acredito que deve haver um movimento de teatro, tem um festival, escritores... Culturalmente, isso reflete, você sente que é um público interessado e isso deve acontecer também com a música e a dança", comentou ao Correio Popular.

Inglês nascido em Londres, o autor Harold Pinter é associado ao teatro do absurdo e "O Zelador" talvez seja sua obra mais conhecida pelos palcos mundiais. A estréia ocorreu em 1960 e o projetou internacionalmente. Eu fiz ¿O Zelador¿ com nada, no cinema você gasta no mínimo R$ 500 mil, R$ 1 milhão, para fazer", acentua Mello, lembrando que o espetáculo está há quatro anos na estrada. Pelo tempo de convívio, os três atores mantêm uma intimidade em cena que, segundo o ator, chega ao público. "É a arte onde o ator é dono. Dina Sfat dizia: É o único lugar onde ninguém fala corta", ressalta.



Pelo texto direto, "O Zelador" consegue entreter e ao mesmo tempo provocar reflexões. É bem verdade que falta um pouco de ritmo no meião do espetáculo, mas O Zelador é uma peça muito cruel. Ninguém é insubstituível, esse seria o lema dessa peça. No palco, dois irmãos dividem o espaço com um mendigo. Logo as relações de poder se estabelecem e se deterioram. "É legal ver O Zelador e sair mexido de alguma forma. É uma coisa mais simples, mas bota para pensar. É uma responsabilidade o que vou apresentar para o público", argumenta.

Na montagem a temática é a solidão humana e a dificuldade de comunicação entre as pessoas. Na opinião do ator, apesar do texto ter sido escrito em 1960, a temática que trata está ainda mais atual. ''Hoje temos diversos meios de expressão, internet, pager, telefone... mas continuamos com uma forte tendência a nos isolarmos. Ainda temos grandes dificuldades para nos entendermos'', acrescentou.

Namastê... Rafa...


Segunda-feira, Novembro 01, 2004


Não sei bem o que está acontecendo comigo nestes últimos dias... Parece que intuitivamente estou me preparando para um grande acontecimento interno que ainda desconheço, apenas o sinto. Suspeito que eu esteja novamente sobre uma intensa lucidez alucinante, que apenas os loucos e os santos podem ver, digamos ser um fulminante vislumbre de compreensão, o desapego e a renovação integral do olhar sobre o seu real valor diante da vida.

Qual o valor de um diamante para um cachorro diante de um osso? Essa é uma das indagações erguidas no último espetáculo da maravilhosa Denise Stoklos, "Olhos recém-nascidos", a despeito do que é mais (ou menos) importante a um ator. Espero que este espetáculo venha logo para Campinas, porque parece ser bastante reflexivo para a classe artística.

Não há consenso em mim, parte de mim caminha num sentido, outra parte, sem que eu perceba, caminha noutro. Não sei o que é mais importante. O que é prioridade. O que é melhor. Sei que faço o que faço com toda paixão e inteireza de que disponho, mas não ganho dinheiro, e parte de mim não liga, mas a outra parte me devora, me engole inteiro em cobranças de responsabilidade. Ecos.

Recordo-me que há algum tempo atrás, nos meus primeiros contatos com os textos de teatro, onde estive inteiramente entregue a esse universo, um paradoxo fascinante das desmotivantes questões essencialmente humanas. Lembro que ao concluir cada leitura, a sensação que eu tinha era de sair dilacerado e plenamente contaminado por uma cruel lucidez, decorrente do maior dos desafios: a reconfiguração total dos valores humanos e sociais, e isso resulta no caminho sem volta desta tal contra-mão que me conduz até os dias de hoje. Aguardo ansiosamente o 3º ano, para poder estudar Nelson Rodrigues, que considero um dos maiores facilitadores desta missão.

Estou em crise. E isso, segundo algumas pessoas, é bom. Bem-vindo à crise. Graças a Deus ela chegou! Agora posso criar. Não há dúvida que a arte nasce do caos. Mas também acredito que não há som sem o silêncio.

De certo, apenas que o final do ano se aproxima e as produções do Conservatório se preparam para entrar em temporada. Com isso a cidade fica repleta de boas opções de entretenimento. A temporada do ano passado foi riquíssima, com a Ópera do Malandro, Gota D'Água, Círculo de Giz e Cacilda Becker. Será que esse ano vamos conseguir superar a qualidade de 2003??? Revolução na América do Sul, Felix Farsa, Auto de Natal e muito mais vem por ai...

Basicamente assim definiu Beckett: "O essencial é comer e cagar".


Domingo, Outubro 17, 2004


Esse final-de-semana para mim é muito especial. Hoje as 9h, minha linda Maria Eduarda será batizada pelos sacramentos católicos. É como se mais uma vez eu recebesse Deus no meu coração. Confesso que já não aguentava mais dormir com a luz acessa (os "antigos" dizem que as crianças não batizadas não podem ficar totalmente nas trevas. Melhor não abusar).

Porém, os últimos acontecimentos no Conservatório, me colocaram para refletir um pouco sobre meus objetivos no teatro. O que estou fazendo aqui? O que vale a pena? Meu objetivo era encontrar forças e determinar meus caminhos nesse mundo que sempre sonhei em estar. Foi ai que encontrei uma revista Bravo, com uma reportagem sobre falecido Plínio Marcos (1935-1999). O nome do texto era O ATOR, uma da peça BALADA DE UM PALHAÇO, considerado um dos textos mais poéticos de Plínio, e confesso que o texto me pegou em cheio.
O ATOR
Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o bastante para fazê-lo indiferente às desgraças e alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave no qual ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu em sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade, e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que, por desencanto ou medo, se sujeita, e por aí inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos nos quais não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e os autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.

O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas, o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. 

É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade, e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de seus personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter ¿ não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

Plínio Marcos


Ok... é hora de arregaçar as mangas e concluirmos um trabalho.
Existe uma vocação a ser cumprida e o ator de verdade precisa mostrar para que veio...

Namastê,
Rafael Santin


Domingo, Outubro 17, 2004


Já faz algumas semanas que eu deveria ter postado essas fotos aqui, mas como antes tarde do que nunca, vamos falar agora de Entre Quatro Paredes. O empolgante exercício realizados pelas minhas grandes parceiras Danielly Borges, Gisele Wauters e Thamy Quintanilha era um dos mais aguardados nesse segundo semestre e deu conta do recado. Com uma atuação bastante introspectiva, as meninas conseguiram prender a atenção com o texto de Sartre que toca em um assunto sempre curioso: A Morte.



Entre Quatro Paredes (Huis Clos), chamava-se inicialmente Os Outros (Les Autres) e foi escrita por Sartre para a interpretação de duas amigas, Olga Barbezat e Marie Olivier, que então iniciavam suas carreiras no palco. A idéia de escrever um drama ambientado num só cenário, com poucas personagens sempre seduziu Sartre. Ele imaginara uma situação a portas fechadas e a primeira que lhe ocorreu foi a de três indivíduos encerrados num porão, durante um bombardeio prolongado. Depois, refletindo, optou por uma situação extrema: A Eternidade.



A ação da história desenrola-se no inferno, legal, né! Não o inferno da mitologia cristã, com diabos, garfos e cheiros de enxofre, mas uma sala de estar como a de nossas casas. Levados um a um a esse espaço pelo Criado (vivido aqui pela nossa Cassandra Gonçalves), chegam Garcin, Inês e Estelle, respectivamente um homem de letras, uma funcionária dos correios lésbica, e uma mulher da alta sociedade.

Enclausurados e condenados à vida em comum, não tardam em tornar a convivência verdadeiramente insuportável. É no confronto dos três que se encontrará a razão da frase e a pedra de toque do existencialismo: ¿O Inferno são os outros¿; não é a mera presença dos Outros que os atormentará, mas sim a consciência que esses Outros têm das culpas de cada um. Praticamente zeram-se os conflitos morais individuais, como o tema e os personagens poderiam induzir.

Bastante apropriado para quem semanas antes foi assistir O Canto de Gregório, pois o existencialismo de Sartre, na certa influenciou o texto afiado de Paulo Santoro. Entre Quatro Paredes é o drama que mais nitidamente reflete as preocupações filosóficas de Sartre.

Parabéns meninas.
Rafa...


Domingo, Setembro 26, 2004


Final de semana especial para quem foi assistir a "maratona" Antunes Filho em São Paulo. O projeto de qualidade desenvolvido por Antunes na criação de seus novos espetáculos foi bastante observado pelas 75 pessoas que lotaram o teatro do CPT no 7º andar do Sesc Consolação. Nós do CCG para não contrariarmos a regra, assistimos tudo com muita atenção e comentários no final.

Confesso que minha expectativa inicial (falei muito sobre expectativas essa semana) estava toda voltada para Prêt-à-Porter. A tão comentada (aqui mesmo) série criada e desenvolvida por Antunes, chega a sua 6ª versão e além dos elogios da crítica especializada, era o grande motivo de nossa viajem à capital. Prêt-à-porter não me deixou nem um pouco frustrado, porém O Canto de Gregório foi muito além do esperado. Um espetáculo lindo e provocativo que prende a atenção do começo ao fim, mesmo com um texto bastante eclético.

Mas vamos com calma, para começar o primeiro espetáculo da noite, Prêt-à-Porter 6. A série Prêt-à-Porter é a imagem total do método de ator desenvolvido no CPT por Antunes Filho. As conquistas feitas pelos autores/atores das dramaturgias que compõem cada grupo de cenas, vêm de um trabalho intenso na busca dos personagens escondidos dentro de cada um deles. É este encontro que vimos nos três novos trabalhos do grupo.



Do método criado pelo diretor resultam cenas pensadas, desenvolvidas e dirigidas pelos atores. Dos atores do Centro de Pesquisa é exigido uma revisão intensa e constante de conceitos sobre o que é ser ator, sobre seu papel no palco e seu diálogo com o outro. Esta revisão praticamente cotidiana, está pautada em uma estrutura imutável que funda o Prêt-à-porter. A formatação desta série de encenações continua essencial, o cenário e o figurino simples e duas pessoas, como sempre, estão em cena. Quem deve mudar, e brilhar, é o ator. É ele que dá à luz a cena.

Fazem parte deste Prêt-à-Porter as dramaturgias A Casa da Laurinha, com Juliana Galdino (que alguém disse ser "qualquer coisa de outro planeta") e Simone Feliciano, Senhorita Helena, com Arieta Corrêa e Carlos Morelli, e Estrela da Manhã, com Emerson Danesi e Kaio Pezzutti.

O pequeno teatro do CPT, prescinde de iluminação especial e dispõe de mínimos objetos de cena, uma caixa preta capaz de conter as três cenas e os pares de atores da seqüência dos exercícios de Prêt-à-Porter. Prêt-à-porter 6 ronda um caos na exposição de três situações, que capturam o conflito de dois personagens, sempre dois, jogados em um instante de tensão.



Em A Casa da Laurinha, uma jovem prostituta experimenta o seu vestido de casamento, costurado pela dona do bordel, que tenta convencê-la da mentira de seu desejo de se tornar uma mulher socialmente reconhecida. Em Senhorita Helena, um empregado demitido mantém em cativeiro a filha de seu ex-patrão, numa dependência mutuamente doentia. Em Estrela da Manhã, um transexual procura um cirurgião para implantar seios.

Essas sugestões dramáticas, criadas pelos próprios atores, se sustentam no realismo e sem qualquer pretensão de fazer alta dramaturgia, mas apenas de investigar práticas teatrais para alcançar o despojamento de recursos que transforme a ação cênica em algo simples, mas essencial.



As tramas são previsíveis. Mas pouco importa, o que prevalece é a oportunidade que cada uma das narrativas, com tempo de duração entre 20 e 30 minutos, apresenta como ''questões da representação''. As duplas de atores conseguem convívio cênico que cria um jogo cúmplice, deixando que o artifício e a falsa naturalidade apareçam sem disfarces. Não percam...

Após alguns minutos aguardando no saguão do teatro, voltamos para o 7º andar, para mais uma vez lotarmos as dependências do CPT. Ainda aguardando, agora já na platéia, o programa do O Canto de Gregório, que eu acabará de comprar, me chamava a atenção. "Caro espectador, não estou aqui para levá-lo a paralisia nenhuma", palavras do próprio autor, Paulo Santoro. "Temos a felicidade de não nos mantermos presos o tempo todo em nosso quarto às vezes frio e assustador, questionando os mitos que regem a nossa alma". Acho melhor eu apertar o cinto.



Este é o fardo do protagonista de O Canto de Gregório, texto que nasceu do círculo de dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral. Santoro, superpõe mitos da religião e da filosofia nas ruminações de um sujeito face a face consigo e com Jesus, Buda, Sócrates, o Juiz e outros. Para mim, esses personagens são na verdade as suas diversas consciências, em um conflito interior quase como uma auto-flagelação. O final, com o julgamento de seus valores, me fez concretizar a minha análise do espetáculo.

Arieta Corrêa, foi um espetáculo a parte. A atriz que em Prêt-à-Porter já mostrou talento ao contracenar amarrada a uma cadeira, conquistou a todos que assistiram "Gregório". Como quem usasse uma metralhadora, ela disparou as teorias existenciais que perturbavam a cabeça de Gregório, lutando consigo mesmo nas diversas concepções de valores existentes na sua personalidade.



O Visual do espetáculo, como disse no começo do texto, é muito provocativo. Começa com as luzes da platéia totalmente acesas, expondo os atores a uma aproximação com a platéia, quase que sufocante. Diversos bonecos completam um suposto elenco estático, questionando muitas vezes o objetivo do ator em cena ("esses não faltam aos ensaios" comentário inteligente que ouvi no meio da platéia).

No final, além da tietagem com o ator e diretor Luiz Carlos Vasconcelos (de Eu, Tu, Eles), tivemos a oportunidade de conversarmos com a "extraterrena" Juliana Galdino (Jesus e Juiz) que lamentou em tom de confissão, o não agendamento de Campinas na turnê dos espetáculos. Para encerrar, uma foto com Jesus... Juliana e Arieta talvez sejam as novas surpresas de Antunes para a nova geração de estrelas do CPT. Ela Juliana já protagonizou "Medéia" com o próprio Antunes na direção, participou de várias versões de Prêt-à-Porter e estrelou o filme "Nina", do diretor Heitor Dhalia, contracenando ao lado de Guta Stresser. O filme deve estrear em breve nas salas brasileiras.



Beijos, namastê
Rafa...


Domingo, Setembro 19, 2004


A poucos dias de assistirmos Prêt-a-Porter de Antunes Filho, peça escrita, dirigida e interpretada pelos próprios atores que a conceberam e encenada desde 1998, Os Prazeres da Vida já começa a esquentar os tamborins com uma visão do nosso "homem do mês", sobre o ofício do ator... fácil, heim!?!?



No começo de 2001, a revista época fez uma eleição popular para eleger o brasileiro do século. Antunes Filho ficou em 20º lugar na categoria "artes cênicas". Se dependesse das experiências profissionais que adquiriu como aprendiz no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), na década de 50, o diretor de teatro Antunes Filho (nascido a 12 de dezembro de 1929 em São Paulo) não passaria de um copeiro de luxo muito culto. "Fui um grande buscador de café, varredor de palco e assistente que assistia a tudo", costuma dizer. Iniciou a Faculdade de Direito no Largo São Francisco, em São Paulo, mas preferiu trocar as encenações dos tribunais pela dramaticidade dos palcos.

Além do estágio, Antunes manteve dedicação ao teatro fora do horário do "expediente". Na época, uniu-se à Turma da Biblioteca, um grupo de estudantes que se dedicavam unicamente a beber, filosofar e visitar regularmente uma biblioteca na rua Sete de Abril na capital paulista. Gastavam horas consumindo em doses cavalares literatura especializada em teatro e cinema.

"Nunca paguei para assistir a qualquer espetáculo no Municipal, eu conhecia o porteiro e ele me deixava entrar de graça", lembra-se com orgulho da estripulia. Ainda em 1950 trabalhou nos primeiros teleteatros da América do Sul, na TV Tupi, marcando sua presença nas telas desde os primórdios da tevê. Entre os anos de 1955 e 1957, dedicou-se à produção e direção de programas de televisão, como os culturais Grande teatro Tupi e Entre-ato. A experiência internacional de Antunes ficou por conta de um estágio no teatro italiano Piccolo Teatro de Milano, em 1960, graças a uma bolsa de estudos concedida pelo governo italiano. Um ano mais tarde, quando retornou ao Brasil, voltou a trabalhar na televisão, mas cansou-se em seguida, quando sentiu que havia ultrapassado seu amadorismo. Além disso, a tevê também começou a desagradá-lo, pois havia se tornado massificada, chata e essencialmente comercial, segundo afirmou. "Eu estava no auge, mas fazendo teatro comercial. Quando me dei conta disso, parei com tudo", diz. Rompendo com o teatro que considerava ultrapassado, partiu para a direção de sua primeira peça, Macunaíma, em 1978, considerada um marco da dramaturgia nacional.

Em 52 anos de carreira, Antunes marcou a cena teatral brasileira com espetáculos antológicos. Não satisfeito com os caminhos que estava trilhando, parou inúmeras vezes. Mas continua incansavelmente buscando um novo teatro que possua intérpretes vivos e que o faça aprofundar-se cada vez mais em sua espiritualidade. Em 98, inaugurou a Nova Teatralidade, que propõe a primazia do ator. As suas severas críticas à situação da interpretação no teatro, no cinema e na tevê o levaram a criar o projeto Prêt-à-Porter, que estreou recentemente a sua quinta versão.

Veja agora trechos de uma entrevista realizada pela revista "Camarim", em março de 2003:

Como começou a sua carreira. Você sofreu influências de algum artista ou familiar?
Minha mãe, que era muito alegre, me levava para ver teatro, escondido do meu pai. Quando moleque eu vi quase todos os atores antigos representando. Acho que estava marcado. Uma coisa que me influenciou demais foi o cinema. Mais tarde passei a entender melhor o que era aquilo através do Centro de Estudos Cinematográficos, onde tive o primeiro encontro com o cinema de arte. Isso me deixou maluco. Um tempo depois esse Centro foi transferido para o Museu de Arte Moderna e ali ficava a Cinemateca. Conheci, então, todos os clássicos. Passei a ter também contato com as artes plásticas, exposições, leituras, pinturas, poesias. Vi todas as Bienais, desde o início. Através de tudo isso fui me encantando pelo ator e pelas encenações. Paralelamente eu ia ao circo aos domingo e via todos os espetáculos e melodramas. Sempre vivi esse mundo meio louco e desde moleque fiz teatro com os amigos. Foi assim que tudo começou.

Você já teve alguma experiência como ator?
Já e foi horrível. Eu era boy na prefeitura e o Osmar Rodrigues Cruz, que também trabalhava lá, me convidou para participar de uma peça dele. Entrei como ator, mas num determinado momento esqueci o texto. Estava tão distraído, tão à vontade, que fiquei lendo jornal na coxia esperando a minha deixa. Só que eu lia as notícias de verdade e esqueci que tinha que entrar. Quando percebi já era a minha vez e já não sabia mais nada. Saí em pânico do palco. Nunca mais quis saber desse negócio. Então resolvi ser diretor.

Você já teve alguma experiência como ator?
Já e foi horrível. Eu era boy na prefeitura e o Osmar Rodrigues Cruz, que também trabalhava lá, me convidou para participar de uma peça dele. Entrei como ator, mas num determinado momento esqueci o texto. Estava tão distraído, tão à vontade, que fiquei lendo jornal na coxia esperando a minha deixa. Só que eu lia as notícias de verdade e esqueci que tinha que entrar. Quando percebi já era a minha vez e já não sabia mais nada. Saí em pânico do palco. Nunca mais quis saber desse negócio. Então resolvi ser diretor.

Como aconteceu o salto do teatro amador para o TBC?
Comecei a fazer, juntamente com alguns amigos, um teatro meio expressionista. Era tudo misturado: artistas plásticos, gente que escrevia, atuava ou dirigia. Uma trapalhada... Mas formei um grupo amador. Tempos depois fiz uma peça chamada Os Outros. O Décio de Almeida Prado foi assistir, sei lá por quê, gostou muito do meu trabalho e me convidou para o TBC. Lá fui eu trabalhar com Ziembinski, com o Celi, esses cobras todos. Eu era assistente de direção e buscador de café. Enquanto eu buscava café para a Cacilda e o Sérgio Cardoso tudo bem, mas quando era para canastrão... aí era chato. Foi no TBC, através do ecletismo do seu teatro, que eu pude perceber certos pilares da cultura necessários para se fazer uma cena, a utilização do palco, etc. O Adolfo Celi era magnífico nisso. Ele sabia a palpitação, a vibração de cada pedaço do palco. Ele dava sentido e vida psíquica ao tablado. Sinto que hoje em dia os diretores não percebem o que é o palco. E eu aprendi isso. O palco é um organismo vivo, tem tudo, todos os órgãos do corpo. Temos que perceber a sua fisiologia e biologia. Além disso, aprendi a ter disciplina. Sem ela não é possível fazer nada. Aprendi tudo isso no TBC.

Logo depois já veio Macunaíma?
Não. Logo depois veio a primeira grande ruptura. Um dia eu percebi que o teatro comercial era bom, mas não me satisfazia espiritualmente. Então eu disse: Basta! Vou fazer outra coisa, vou me dedicar aos jovens, quero um teatro que valha a pena, que tenha um sentido espiritual. Tudo o que eu estava fazendo não tinha nenhuma coerência. Era bom, mas não era isso. Foi aí que começou Macunaíma.

É possível dividir a sua trajetória em fases?
Sim, em duas fases fundamentais: antes e depois de Macunaíma. Mas claro que tudo tem a sua preparação. Larguei o teatrão para me dedicar aos jovens. Isso representou um resgate à minha juventude. Reencontrei-me com o garoto da cinemateca, que ia aos museus, às Bienais, às exposições, ao cinema de arte. Toda essa inquietação não coincidia com o que eu estava fazendo. Sou talvez o único diretor no Brasil que largou o teatro profissional e comercial de sucesso e apostou em algo novo. Eu tive coragem! Parei no sucesso e não no fracasso, foi uma opção. Não conheço ninguém mais que tenha feito isso. Existem, sim, os anfíbios, que fazem tanto o teatro comercial como o experimental. Eu não, larguei tudo e voltei àquilo que eu precisava espiritualmente. Aí fiz Macunaíma e o que todo mundo já sabe. Só que com o passar do tempo comecei a perceber que eu estava apenas reproduzindo cópias do que já tinha feito. Claro, mudando o texto, a cenografia, mas o espetáculo era sempre o mesmo. Um teatro formatado, com repetição de formas e fórmulas. Parei novamente.

E qual foi a etapa seguinte?
Parei para me dedicar ao ator. Só tenho saída para fazer um bom teatro se eu me apoiar no ator. Senão fico comigo mesmo. Preciso formar atores para que possa haver essa comunicação e para sair do círculo vicioso em que eu estava, do esteticismo que ia se tornar o meu teatro. A primeira coisa que senti é que precisava cuidar da voz. Esse troço era um enigma para mim. Tentei algumas vezes fazer tragédia e era ridículo aquele jeito de falar o texto. Eu queria um outro tipo de voz. As pessoas falam de um mesmo jeito no cinema, no teatro e na tevê. É totalmente diferente. A questão é dar ao ator a técnica certa para ele utilizar nos diferentes meios. Duvido que alguém no meu teatro fique com calo na voz. Impossível, tudo está perfeitamente equacionado. Eu não confio nas fonoaudiólogas porque elas não sabem fazer isso. Entendem de outras coisas, mas colocar a voz no ator, transformando-o num poeta, isso ela não vai conseguir. É muito difícil juntar emoção, forma de dizer, musicalidade. Porque é justamente na respiração e na voz que estão todas as vibrações espirituais. Comecei então a fazer um estudo profundo da voz, eu queria entender o fenômeno, como acontecia o falar, a sonoridade, como fazer o som chegar na platéia, a eufonia. Nessas alturas o trabalho de corpo estava num bom processo. Só que de repente percebi que corpo e voz são a mesma coisa. Um depende do outro. Não dá para estudar separadamente. Acho que a partir de agora eu já posso tentar algumas coisas a mais como encenação.

O que é preciso para se tornar um ator/criador?
Antes de mais nada é necessário o afastamento. Estou lutando muito para chegar nele, fazer tudo como um jogo, sem ansiedades. Não estou me referindo ao distanciamento crítico brechtiano, que tem um sentido social, político. O meu é espiritual Hoje em dia não existe mais sentido em fazer essa coisa mimética no teatro, serve somente como aprendizado para o ator. O que nos salva de não fazermos o naturalismo/realismo é a consciência do jogo. Os atores sabem o que estão fazendo. Antigamente não, eles acreditavam naquilo. Nós não acreditamos. Antes o realismo era o fim. Para nós é somente um meio para atingirmos outras camadas.



Qual a diferença entre naturalismo e realismo?
O naturalismo é a vida como ela é. Nós estamos aqui e alguém filmou tudo isso até agora; esse é o naturalismo. Mas se alguém editar as cenas, escolhendo os melhores momentos, isso já é realismo. Você seleciona do natural as coisas.

No programa de Prêt-à-Porter 5 pode-se ler que "o ator/artista são dois. Distanciado da realidade do cotidiano, mas dentro de outra realidade superior e distinta, ele vai criar jogos infinitos, iludindo o espectador com eficácia, 'fingindo' naturalidade". Que tipo de naturalismo é esse?
O naturalismo que existe por aí é o famoso jeitinho de fazer novela. Uma coisa incrível, estereotipada no falar e no agir. Os atores ficam o tempo todo na projeção burra e isso não significa nada. A projeção de voz não permite as sutilezas porque coloca tudo para fora. A televisão é uma caricatura do realismo. O Prêt-à-Porter é um falso naturalismo, uma maneira de o ator se limpar. Essa é a nossa maior dificuldade no CPT (Centro de Pesquisa Teatral), já que a grande maioria dos atores tem mania de passarela, de muitos gestos. Eu tenho que jogar tudo fora. Preciso deixar o ator com ele mesmo, torná-lo simples, humilde, franciscano. Limpar tudo, permitindo o contato com a sua espiritualidade. O Prêt-à-Porter é uma limpeza, a queima dos estereótipos, o ator com técnica e consciência de sua arte, dono da sua expressão. E esse encontro com a própria espiritualidade transcende a realidade, embora imite-a. Você está jogando e ao mesmo tempo está entregue num outro nível. Justamente por isso é falso.

Como você trabalha a limpeza dos estereótipos?
Estudamos e lemos muito. É uma maneira de mergulhar a pessoa nela mesma, de fazer com que ela lide com o seu subconsciente, com os arquétipos. Tudo isso é importante; ajuda esse estado de limpeza. Os atores pensam que representar é uma coisa e é outra. É um longo processo fazer a pessoa retornar ao seu eixo, ao seu eu, ao seu self. Quando as pessoas se alienam e deixam de ser um todo, tentando individualmente representar alguma coisa através de seu narcisismo ou egoísmo, então elas se afastam da natureza humana. No CPT tentamos fazer com que as pessoas se integrem novamente ao todo. O todo da natureza. O aprendizado é um processo gradativo.

Como o teatro brasileiro e seus atores são vistos hoje no exterior?
Eu acho que estamos vivendo uma crise internacional de teatro. Está muito difícil. Tanto é que tenho sido convidado para ir ao exterior, mas estou com medo. Eu tenho é que fazer alguma proposta de teatro novo, discutir a encenação, discutir outras coisas, por mais que possa interessar o que eu faço hoje. Por exemplo, fiz Prêt-à-Porter e Medéia com um objetivo cultural brasileiro. Não me interessa levar esses espetáculos para fora. Quero apresentá-los aqui. São trabalhos que discutem a prática do teatro e do ator no Brasil.

Como anda a nova dramaturgia brasileira?
Eu a temo muito. Só pode haver dramaturgia quando existirem atores realmente capacitados, além dos estereótipos. Se eu escrevo um texto profundo, uma hipótese, e dou para certas companhias e diretores realizarem, fica um negócio que... Olha, nunca mais vou escrever um novo texto. Então eu paro com o teatro porque é muito grosseiro e escrevo romances, poesias, contos ou outra coisa qualquer. E se eu quiser dinheiro já, vou fazer novelas direto. Agora, se pego atores que saibam dar profundidade ao meu texto, eles me incitam e estimulam a produzir coisas cada vez mais profundas. Hoje em dia o texto é apenas um pretexto para uma série de encenações mirabolantes. Aí a dramaturgia fica como uma coisa exterior. Tenho certeza de que não vai existir um grande novo autor brasileiro se não existir o novo ator.

Apesar da sua grande paixão pelo cinema, por que você só realizou um único filme (Compasso de Espera)?
Porque eu acho que as condições no Brasil para se fazer cinema são muito ruins. Posso até conseguir verbas, mas vou ser obrigado a aceitar as regras do consumo? Não! Se tiver que fazer um filme, vou realizá-lo do meu jeito. Meu primeiro trabalho em cinema foi apenas uma experiência. Ou faço um filme que transcenda a vil realidade globalizada que estamos vivendo ou não faço nada. Posso até falar de globalização, mas em outros termos. É necessária uma atitude crítica e poética. Acho ridículo fazer um filme apenas para contar histórias. Uma perda de tempo. Além do mais, me interesso mais pelo teatro, apesar de gostar mais de cinema. Olha que grande contradição.

O que você pensa das escolas de teatro?
Eu não quero julgar nada. Seria antiético falar a respeito. Percebo apenas que os atores precisam de mais preparo. Não podemos deixar de ampará-los. O CPT faz isso, oferecemos uma assistência. É impossível você dar tudo o que um ator precisa em 3 anos. Acho que está faltando um desenvolvimento cultural das pessoas de teatro. Temos que formar atores que possibilitem o futuro cultural do país. Todo mundo só está dando forma, estereótipos. Sinto que as escolas não estão muito preocupadas com isso. Essa é a minha luta. Quero aprofundar o conteúdo humano de cada um. Para isso os atores têm que estar mais preparados, mais cultos, têm que ler mais, precisam se exercitar mais. No entanto, as pessoas querem somente o sucesso pessoal em vez de estarem em busca de uma saída. Uma saída cultural para o país.

A excursão para assistir Prêt-a-Porter acontecerá dia 28 deste mês e está sendo organizada pelo professor Rubens Teixeira.

Curiosidade: Antunes era office-boy na Prefeitura de São Paulo quando jovem e insistiu para integrar o grupo do diretor Osmar Cruz. Foi selecionado, mas não ganhou o papel principal. Por pirraça, formou seu próprio elenco, roubando os alunos de Osmar. Mandou seu recado: "Devo meu sucesso ao seu boicote".

Namastê,
Rafa...


Domingo, Setembro 19, 2004
Para quem não assistiu no cinema, chega as locadoras brasileiras o "4º filme de Quentin Tarantino", o comentadíssimo Kill Bill. É realmente imperdível, um show de estilo, mantendo um equilíbrio impecável entre o roteiro, atores, músicas e é claro... a lente de tarantino. Esse filme me dá a impressão de ter entrado num mundo próprio e pessoal, que antes de mais nada, é um filme de amor... apesar de ser pra lá de sangrento.

Tarantino é profundamente apaixonado não apenas pelo próprio cinema, mas pela experiência de ver filmes. O apelo de Kill Bill reside tanto na capacidade de cada um acompanhar (ou agüentar) a coreografia e lógica da sua violência, mas também de ver no cinema um objeto de paixão e estudo.

Ao abrir seu filme com a vinheta velha e riscada de alguma sala de cinema do seu passado (Agora, Nossa Atração Principal), Tarantino estabelece o início de uma viagem pelo tipo de filme que, a julgar pela sua obra, o atingiu em cheio na juventude.

São filmes de karatê e kung-fu feitos em Hong Kong e no Japão, exibidos no Brasil nos cinemas de bairro dos anos 70 e 80 como filme de pancadaria. Esses filmes são um gênero popular mas pouco respeitado por nós cinéfilos e estudiosos de uma postura mais tradicional. Quando eu era criança, passava na frente do cine Windsor, ou no Cine Regente (hoje para nosso desespero, um virou cinema pornô e o outro templo da Universal), tinha sempre um "filme de karatê" no meio dos cartazes e eles sempre me chamavam a atenção. Que saudades...

Na verdade, Tarantino confirma com Kill Bill um tipo de amor que é recorrente no cinema. Cada geração traz autores apaixonados pela idéia de filmar o próprio cinema, remixando outros olhares através dos seus. Nomes como Jean Luc Godard, François Truffaut ou Brian de Palma, 30, 40 anos atrás, já expressavam o tipo de admiração por filmes e diretores que os marcaram, com releituras do filme B americano, de autores pouco considerados na época como Samuel Fuller, Nicholas Ray ou Alfred Hitchcock.

Tarantino sempre fez referências desses filmes em suas obras. No seu roteiro para Amor à Queima Roupa, dirigido por Tony Scott, Tarantino faz o personagem principal comemorar a noite de seu aniversário numa sessão tripla do astro de artes marciais Sonny Chiba, que aparece em pessoa em Kill Bill como Hattori Hanzo, um artesão de espadas samurai. Uma espada do mesmo tipo é usada num dos momentos mais importantes de sua obra-prima, Pulp Fiction (sequência de Zed, no porão), que, como Kill Bill, é dividido em capítulos literários e onde uma das referências é a série de TV (anos 70) Kung Fu, com Keith Caradine, que aqui interpreta Bill. Jesuss!!!!

Em cenas memoráveis como o sensacional confronto suburbano de abertura, onde a "noiva" protagonista da história acerta as contas com uma ex-colega, Tarantino estabelece as leis do seu universo estilizado. Nessa sequência, montada e sonorizada com máximo efeito de brutalidade, há um equilíbrio perfeito entre o fantástico e o mundano. A casa classe média, com brinquedos no jardim, sala e cozinha gera contraste interessante com a ação francamente bizarra que se lá se desenvolve.

Fica uma sensação de paixão obsessiva que poderá borrar a impressão geral do filme para alguns, mas insuficiente para apagar a impressão de estarmos diante de uma obra das mais interessantes, onde o cinema se alimenta dele mesmo.

A sequência final no restaurante japonês, onde a "noiva" usa um macacão amarelo com uma lista lateral preta, igual a que Bruce Lee em "Operação Dragão", tem aproximadamente uns 25 minutos de duração e é uma orgasmo múltiplo de estilo, do tipo "vamos ver de novo?".

Namastê,
Rafa...


PS: Li agora há pouco uma entrevista de QT na revista Premiere americana onde ele explica que a cena da enfermeira (Darryl Hannah) levando o veneno numa bandeja, no hospital (assoviando), não é algo de Brian de Palma (para mim, isso já estava definido e fechado), mas do trailer de Black Sunday (Domingo Negro, 1977), aquele filme empolgante de John Frankenheimer sobre terroristas árabes nos EUA. O interessante (e que me estimulou a acrescentar aqui nesse texto de rodapé) é que a imagem não existe no filme em si, mas apenas no trailer! No filme de Frankenheimer, há, de fato, uma enfermeira indo matar um homem no hospital, mas foi no trailer que a tela apareceu dividida (split-screen) e a tensão criada, tensão que não está no filme, mas agora em Kill Bill.


Domingo, Setembro 12, 2004

Um novo mestre do suspense inteligente. Uma aventura empolgante e instigante



À algumas semanas comecei a ler O Código Da Vinci. Movido pelo sucesso literário, comprei um exemplar sem muitas expectativas. Para minha imensa surpresa, estou completamente preso a ele. Uma mistura de ficção com acontecimentos reais (assim como Jô Soares já utilizou em seus dois últimos livros), são a essência desta história: Um código instigante oculto nas obras de Leonardo da Vinci. Uma corrida desesperada através de catedrais e castelos da Europa. Uma verdade espantosa escondida durante séculos e por fim desvendada.



O Código da Vinci, livro do escritor e professor americano Dan Brown que já vendeu mais de 10 milhões de exemplares em todo o mundo. Em 475 páginas (ai Jesus) de investigação e suspense, uma história revela a batalha travada pelo vaticano durante milênios para manter a integridade da igreja católica.

Tudo começa na França, com o misterioso assassinato do curador do museu do Louvre, Jacques Saunière, envolvendo um famoso historiador americano, Robert Langdon. Aos poucos, os jogadores que movem as peças do tabuleiro vão revelando sua identidade. Do lado dos interesses cristãos está a igreja da Opus Dei enquanto do outro lado está o Priorado de Sião, uma sociedade secular que, supostamente, guarda um dos segredos mais procurados pelo homem.

Os personagens são apresentados com uma narrativa não-linear. À medida que cada um faz sua primeira aparição, flashbacks contam um pouco do passado de cada um (essas partes são um pouco chatas). Junto com Langdon, está a neta de Saunière, a criptologista Sophie Noveau, e um excêntrico sir inglês, o historiador Leigh Teabing. Os três atravessam o continente Europeu, como uma história moderna de Indiana Jones, só que no lugar dos nazistas, está o bispo Aringarosa e um agente da Policia Judiciária da França.

O Código Da Vinci atrai pela grande pesquisa que é apresentada aos leitores. Durante a leitura, a sensação de estar aprendendo algo novo e realmente interessante é cativante, prendendo o interesse em cada página. Através das obras de Leonardo da Vinci, o escritor desmonta a complexidade onde foi criada a história do catolicismo, revelando símbolos pagãos em todas os ritos que fazem parte da igreja. Aparentemente, em todo pequeno detalhe está uma grande lenda sobre a vida de Jesus Cristo na terra.

O sucesso do livro o próprio Dan Brown faz questão de revelar no decorrer da história. Para a astrologia, o ano 2000 marca o fim da era de peixes, onde o homem esteve preso a uma sabedoria divina, ¿ele precisa de deus para pensar¿. Começamos agora a era de aquário, onde o homem começa a se desprender das necessidades materiais e ir a busca da verdade por trás de tudo.

O Código Da Vinci é justamente isso. Uma versão para a verdade apresentada pela igreja da história mais contada no mundo, a Bíblia. Antes de começar o livro, o autor faz questão de explicar que todos os elementos, entidades, sociedades e simbolismos usados no decorrer da história são verdadeiros, baseados em pesquisas feitas por vários historiadores.



Para muitos os mistérios revelados no O Código Da Vinci não são nenhuma novidade. As teorias expostas já foram publicadas em diversos outros romances, talvez com uma quantidade considerável de detalhes a menos que os usados por Dan Brown.

Apenas para aguçar a curiosidade: Achados recentes apontam que o pintor Leonardo da Vinci, assim como vários outros proeminentes franceses, eram membros de alto grau do Priorado de Sião. A sociedade surgiu no ano de 1099 D.C. e foi fundadora da Ordem dos Cavaleiros Templários e também dos Maçons. Para os desavisados, vale lembrar que os Templários se separaram da igreja católica logo após as cruzadas, onde algo encontrado por eles fez o vaticano condená-los, entre outras coisas, por adoração ao diabo.

O talento de Da Vinci como pintor estava em sua astúcia. Tudo que fez para a Igreja Católica quadros como Madona das Rochas e A Última Ceia foi declaradamente pelo dinheiro. De fé duvidosa, a maioria das pinturas religiosas do italiano precisaram de uma segunda versão, já que as primeiras eram recheadas de segundas intenções em cada gesto dos santos retratados. O Louvre guarda todos esses originais.

Sob uma ótica pós-moderna que chega a ser muito estranha, quase todas essas informações podem ser desenterradas direto de casa, usando o mecanismo de busca do site Google. Basta saber as palavras-chaves corretas e, para isso meus queridos, apenas lendo o livro he he he...

Beijos, Rafa


Voltinho Froldi

O assistênte de direção de Abílio Guedes fala sobre o teatro atual e os planos para 2005 na região

1- Teatro hoje, ainda é uma atividade de "paixão" ou o "profissionalismo" está assumindo seu um espaço?

Continua sendo uma atividade de paixão, graças a Deus.

2- As produções realizadas em Campinas, estão de acordo com o nível que a região tem alcançado economicamente?

Muito poucas, infelizmente ainda tem um pessoal que faz teatro, para fazer a feira no dia seguinte.

3- A falta de um circuito teatral com produções da cidade, pode ser uma oportunidade para quem realiza projetos de qualidade em Campinas?

Sem dúvida. Mas com bons trabalhos, espetáculos de nível.

4- O seu trabalho deu um grande salto com "Piaf". O que iniciou o projeto?

Sempre fui apaixonado por Édith Piaf. O Conservatório Carlos Gomes já tinha um Balet coreografado pelo Ruben, com o tema de Piaf. Então a Lea Zigiatti nos chamou, eu e o Abilio Guedes para fazer um espetáculo sobre Piaf onde envolvesse o Teatro, a Música e o Balet, ai escrevi o texto e o Abilio dirigiu.

5- Durante quanto tempo "Piaf" ficou em cartaz? A cidade pode aguardar o retorno desta produção?

Por volta de três a quatro meses. Gostaria imensamente de remontar Piaf.  
Eu e o Abilio estivemos em Paris em outubro de 2003, fizemos toda a trajetoria de Piaf desde a casa onde nasceu, até o cemiterio que está enterrada, assistimos a shows, fomos a esposiçoes, enfim vivemos Édith Piaf.
Na volta reescremos o texto.

6- Qual é a diferença de trabalhar com Abílio Guedes em relação aos outros diretores?

Depois que comecei a trabalhar com o Abilio, eu aprendi o que é Teatro profissional, o que é ser realmente um ator.

7- A "Gota D'Água" e a "Ópera do Malandro" são seus trabalhos mais recentes. O que tinha de especial essas produções?

Montamos as duas produções com o mesmo elenco. Era um pessoal fantástico. 
De especial creio que era a paixão do elenco. Eles viviam teatro 24 horas
por dia.

8- Durante a década de 60 e 70, os textos tiveram um crescimento de qualidade muito grande. Nós vamos ficar presos ao passado ou a dramaturgia brasileira contemporânea apresenta qualidade? Que autores atraem a sua atenção atualmente?

Os textos da década de 60 e 70 são pérolas da dramaturgia brasileira. Hoje temos muito pouco texto de teatro, algum texto bom, mas é raro, é como a música. Ou está faltando inspiração para os autores ou divulgação de seus textos. Adoro Naum Alves de Souza, Mauro Rasi, Marici Salomão, Chico Buarque, Ionesco.

9- Vocês estão a algumas semanas de estrear duas produções, a "Revolução" no CCG e a parceria com a CPFL. Como está a expectativa para essas estréias?

Estamos a mil, entrando em trabalho de parto.Mas confiante.

10- Você já iniciou seu planejamento artístico para 2005 ou as últimas semanas de 2004 serão decisivas para o futuro?

Planejo escrever um musical sobre a vida de uma cantora brasileira, quem sabe.

Bem Rafa. aí esta. Adorei.

Abração

Valtinho Froldi


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